De 26 a 30 de novembro, a Cinemateca Capitólio apresenta a Mostra Cinelimite. A programação apresenta 7 sessões gratuitas que destacam obras brasileiras recentemente recuperadas.
Desde 2020, a empresa Cinelimite dedica seu trabalho a ampliar o cânone do cinema de repertório brasileiro, atuando nas áreas de preservação e distribuição para construir um acervo digital com mais de mil obras nacionais, muitas delas nunca antes digitalizadas. Agora, pela primeira vez, a Cinelimite traz uma seleção de suas mostras mais emblemáticas, além de novas surpresas, para o Rio Grande do Sul, em uma semana de sessões inéditas e descobertas renovadas sobre a rica e ainda em expansão história do nosso cinema.
Além das sete sessões curadas especialmente para esta mostra, os membros da Cinelimite William Plotnick e Glênis Cardoso estarão em Porto Alegre para apresentar, no dia 30 de novembro, às 15h, a oficina Introdução à Restauração Digital de Filmes: Estudos de Caso em Múltiplos Formatos. Esta oficina oferece uma introdução prática ao processo de restauração digital de filmes, baseada em estudos de caso desenvolvidos pela Cinelimite. Ao longo de duas horas, serão exploradas as principais etapas do trabalho de pós-produção após a digitalização de materiais em película, compartilhando metodologias, desafios e soluções encontradas na preservação de obras raras do cinema brasileiro.
PROGRAMAÇÃO
quarta-feira 26/11 – 19h30 – Sessão 1 (abertura)
A Onda de Filmes Queer em Super-8 da Paraíba
Sinopse
No final da década de 1970 e início da de 1980, em plena ditadura militar, um grupo de cineastas queer da Paraíba começou a experimentar novas formas de produção a partir dos cursos de Cinema Direto oferecidos pelo NUDOC, oficina criada na Universidade Federal da Paraíba em colaboração com Jean Rouch e sua escola Ateliers Varan. Alguns estudaram na própria França, enquanto outros, inspirados pelo filme Gadanho (1979), de João de Lima Gomes e Pedro Nunes, buscaram caminhos alternativos ao formalismo do Cinema Direto. A chegada do Super-8 e dos equipamentos no NUDOC abriu um horizonte inédito, tornando possível a realização de filmes para um grupo mais amplo de artistas, que logo passaram a usar o cinema como forma de ativismo e expressão queer.
Dessa experiência nasceu um movimento singular de cinema queer em Super-8, possivelmente o único do século XX no Brasil. Entre suas obras estão Closes (1982), de Pedro Nunes, que mistura depoimentos e uma narrativa romântica gay; Baltazar da Lomba (1982), do coletivo Nós Também, que reencena a história do primeiro condenado por sodomia no Brasil colonial; Era Vermelho Seu Batom (1983), de Henrique Magalhães, que confronta estereótipos e discriminações; Miserere Nobis (1983), de Lauro Nascimento, que propõe uma encenação homoerótica da Última Ceia; e Perequeté (1981), de Bertrand Lira, dedicado ao ator e dançarino Francisco Marto. Produzidos sob vigilância e repressão, esses filmes permanecem polêmicos até hoje. A mostra A Onda do Cinema Queer em Super-8 da Paraíba apresenta novas cópias em 2K, digitalizadas durante o projeto Digitalização Viajante (2022–2023), além de entrevistas inéditas com os diretores e com Marto, resgatando um capítulo esquecido e pioneiro da história audiovisual brasileira.
- Perequeté (1981) de Bertrand Lira
- Baltazar da Lomba (1982) de Nós Também
- Era Vermelho Seu Batom (1983) de Henrique Magalhães
- Closes (1982) de Pedro Nunes
- Miserere Nobis (1983) de Lauro Nascimento
Tempo: 100 min
quinta-feira 27/11 – 19h30 – Sessão 2
Elas no Cinema Experimental Brasileiro 1960 a 1980
Sinopse:
Entre 1966 e 1986, um conjunto de cineastas brasileiras explorou a invenção cinematográfica fora dos limites tradicionais de gênero e narrativa. Reunindo ficção, ensaio, animação e gesto performático, estes seis filmes atravessam corpo, cidade, carnaval, medo, memória e linguagens audiovisuais populares, abrindo caminhos pouco visíveis no cinema brasileiro. Do mergulho alegórico em animação de Lídia e Arnaldo Albuquerque ao uso experimental de som e montagem de Helena Solberg, da deriva festiva em Super-8 de Katia Mesel à atmosfera quase onírica de Edna Ribeiro, onde tempo e luto se dobram em espirais, passando pela justaposição entre mídia de massa e experiência popular em Elisa Cabral e pelo poema audiovisual de Inês Castilho, que associa desejo, neurose, religiosidade e raça para expor a inquietude feminina sob a opressão social, emerge uma constelação breve, mas decisiva. Esta mostra revela como, em tempos de silenciamento e de experimentação marginal, mulheres também forjaram linguagens radicais que hoje ressoam com rara atualidade.
- Mergulho (1980) de Lídia Albuquerque e Arnaldo Albuquerque – 3 min
- Viva O Outro Mundo (1972) de Katia Mesel – 6 min
- A Entrevista (1966) de Helena Solberg – 20 min
- O Cálice do Medo (1973) de Edna Ribeiro – 8 min
- Tele-visões (1986) de Elisa Cabral – 22 min
- Histerias (1983) de Inês Castilho – 17 min
Total: 76 min
sexta-feira 28/11 – 19h30 – Sessão 3
Mulheres à Frente – Ditadura Nunca Mais!
Sinopse:
Quatro filmes que colocam mulheres no centro da memória do regime e do caminho para a redemocratização. Eunice Clarice Thereza reúne o testemunho de três viúvas de presos políticos, Eunice Paiva, Clarice Herzog e Thereza Fiel, transformando luto em denúncia pública. Margarida Sempre Viva acompanha o abalo e a mobilização após o assassinato da líder sindical Margarida Maria Alves e segue a resposta de sua comunidade. Mulheres Uma Outra História mergulha no calor da Constituinte, com lideranças e deputadas que empurram o país para um novo patamar de participação política feminina. Vistos em sequência, esses filmes percorrem um arco que vai do luto à organização e à presença pública e afirmam com clareza: ditadura nunca mais.
- Eunice, Clarice, Thereza (1979) de Joatan Vilela Berbel – 16 min
- Margarida Sempre Viva! (1983) de Cláudio Barroso 40 min
- Mulheres: Uma Outra História (1988) de Eunice Gutman – 35 min
Total: 91 min
sábado 29/11 – 16h – Sessão 4
O Ciclo Pernambucano do Super-8 Expandido
Sinopse da Mostra:
Entre 1974 e o início dos anos 1980, o filme em Super-8 tornou-se um poderoso canal de invenção em Pernambuco. O que muitas vezes é lembrado como um ciclo centrado no Recife, com seus festivais e cineclubes, foi na verdade mais amplo: filmes eram realizados em Olinda, Caruaru e até mesmo dentro da Penitenciária Agrícola de Itamaracá. Artistas, poetas e coletivos se apropriaram do formato para criar obras que borravam as fronteiras entre cinema, teatro, performance e comentário político. A seleção começa com Auto Natalino (1974), adaptado de uma peça do Grupo Vivencial, e Vivencial 1 (1974), de Jomard Muniz de Britto, ambos ligados a experimentações radicais no teatro e na performance que colocavam o corpo como espaço de liberdade. No final da década, Banguê (1978), de Katia Mesel, tornou-se seu primeiro documentário em Super-8 com som, registrando a vida dos presos em Itamaracá com intimidade e urgência social. Obras como Batalha dos Guararapes Parte II (1978) reinscreveram a história com olhar irônico, enquanto Amin Stepple transformou o espaço urbano do Recife e a retórica da ditadura em cinema: P.S. Um Beijo (1976) captura a vida sensorial da cidade e culmina no agora icônico beijo no Cinema São Luiz, enquanto O lento, seguro, gradual e relativo striptease do Zé Fusquinha (1978) responde à promessa de abertura “lenta e gradual” do regime com alegoria, decadência e uma das imagens mais inesquecíveis do Super-8 brasileiro. Por fim, A Peleja do Bumba Meu Boi contra o Vampiro do Meio-dia (1981), de Lula Lourenço e Pedro Aarão, realizado em Caruaru, encena uma batalha simbólica contra o vampirismo cultural, enraizada nas tradições do teatro popular e do cordel do Agreste e na resistência cotidiana de seus artesãos. Juntas, essas obras delineiam os contornos de um ciclo pernambucano do Super-8 expandido, um laboratório de crítica social, liberdade erótica, reinvenção histórica e imaginação popular que ultrapassou o Recife e se inscreveu no tecido cultural mais amplo de Pernambuco.
- Vivencial 1 (1974) de Jomard Muniz de Brito – 14 min
- Batalha dos Guararapes Parte II (1978) de Fredi Maia, Geraldo Pinho, e Paulo André Leitão- 11 min
- Banguê (1978) de Katia Mesel – 20 min
- Robin Hollywood (1976) de Amin Stepple – 12 min
- O lento, seguro, gradual e relativo striptease do Zé Fusquinha (1978) de Amin Stepple – 4 min
- A Peleja do Bumba Meu Boi contra o Vampiro do Meio-dia (1981) de Lula Lourenço e Pedro Aarão – 24 min
Total: 85 minutos
Sábado 29/11 – 18h – Sessão 5
Cinema Marginal Piauiense – Um Sonho Piauiense
Sinopse da Mostra:
Nos anos 1970, um coletivo de artistas, jornalistas, cineastas e agitadores culturais de Teresina transformou o Super-8, então tecnologia doméstica da Kodak, em linguagem cinematográfica de vanguarda. Influenciados pela Tropicália, pelo cinema marginal brasileiro e por figuras como Torquato Neto, Ivan Cardoso, e Luiz Otávio Pimentel, nomes como Edmar Oliveira, Xico Pereira, Dogno Içaiano, Antônio Noronha, Lindemberg Pirajá, José Alencar, Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Durvalino Couto, Haroldo Barradas, Rubem Gordim, e Nelson Nunes criaram filmes que desafiavam os códigos narrativos e a repressão da ditadura com liberdade, humor e crítica. Obras como Adão e Eva: do Paraíso ao Consumo (um filme perdido), Terror da Vermelha, O Guru da Sexy Cidade, Aterro, Coração Materno, Tupy Niquim, Porenquanto, David Aguiar, Miss Dora, Um Sonho Americano, e Marginália mostram como esse grupo articulou uma produção descentralizada e colaborativa entre Teresina, Rio de Janeiro, Fortaleza, e Belém, usando o cinema como ferramenta de invenção estética e resistência política. Hoje essa produção é reconhecida como CINEMA MARGINAL PIAUIENSE, símbolo de uma experiência intensa de experimentação, amizade e rebeldia que transformou a margem em potência criativa.
Sinopse da sessão
Os filmes do ciclo Cinema Marginal Piauiense estão entre os primeiros já realizados no estado. Antes do surgimento desse grupo de cineastas e artistas, a ideia de fazer cinema em Teresina não passava de um sonho distante. A chegada das câmeras Super‑8 representou uma verdadeira revolução, tornando não apenas a filmagem, mas também o processo de revelação muito mais acessível e democrático. Com o apoio do Dr. Antônio Noronha no financiamento das produções, a união de um grupo de rebeldes ligados à contracultura e às artes, e o retorno do já famoso Torquato Neto — poeta, jornalista e letrista tropicalista — em 1971, esse sonho começou a se tornar realidade. Neto, cuja presença conferia legitimação e inspiração ao movimento, ajudou a impulsionar esse cenário criativo.
Nossa sessão de abertura apresenta as obras pioneiras desse ciclo. Após a conclusão de O Terror da Vermelha (1972), muitos dos participantes deixaram Teresina em busca de estudo e trabalho, mas o legado underground permaneceu e a semente do cinema já havia sido plantada. Esta sessão acompanha esse primeiro momento de crescimento.
- Carcará, Pega, Mata, e Come (1977) de Arnaldo Albuquerque
- O Terror da Vermelha (1972) de Torquato Neto
- Um Sonho Americano (1973) de Arnaldo Albuquerque
- Coração Materno (1974) de Haroldo Barradas
- Miss Dora (1974) de Edmar Oliveira
- David Aguiar (1975) de Durvalino Couto
Total: 93 minutos
Sábado 29/11 – 20h – Sessão 6
Cinema Marginal Piauiense – Marginais no Rio e em Fortaleza
Sinopse geral:
Nos anos 1970, um coletivo de artistas, jornalistas, cineastas e agitadores culturais de Teresina transformou o Super-8, então tecnologia doméstica da Kodak, em linguagem cinematográfica de vanguarda. Influenciados pela Tropicália, pelo cinema marginal brasileiro e por figuras como Torquato Neto, Ivan Cardoso, e Luiz Otávio Pimentel, nomes como Edmar Oliveira, Xico Pereira, Dogno Içaiano, Antônio Noronha, Lindemberg Pirajá, José Alencar, Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Durvalino Couto, Haroldo Barradas, Rubem Gordim, e Nelson Nunes criaram filmes que desafiavam os códigos narrativos e a repressão da ditadura com liberdade, humor e crítica. Obras como Adão e Eva: do Paraíso ao Consumo (um filme perdido), Terror da Vermelha, O Guru da Sexy Cidade, Aterro, Coração Materno, Tupy Niquim, Porenquanto, David Aguiar, Miss Dora, Um Sonho Americano, e Marginália mostram como esse grupo articulou uma produção descentralizada e colaborativa entre Teresina, Rio de Janeiro, Fortaleza, e Belém, usando o cinema como ferramenta de invenção estética e resistência política. Hoje essa produção é reconhecida como CINEMA MARGINAL PIAUIENSE, símbolo de uma experiência intensa de experimentação, amizade e rebeldia que transformou a margem em potência criativa.
Sinopse da sessão
Em 1971, vivendo no Rio de Janeiro e pouco antes de retornar a Teresina, Torquato Neto atuou como prostituta travestida no filme pioneiro de temática gay Helô e Dirce – Mangú Bangue (1971), de Luiz Otávio Pimentel. Essa produção, assim como Nosferato no Brasil (1971) de Ivan Cardoso, filmada ainda mais cedo naquele ano, teve um impacto profundo sobre o jovem tropicalista. Torquato levou essas experiências e influências — como o interesse em desconstruir o cinema de gênero e em adotar um experimentalismo underground — de volta a Teresina, onde as compartilhou com seus pares. Com isso em mente, um dos filmes de abertura desta sessão é a cópia resgatada da obra de Pimentel.
Após a conclusão de O Terror da Vermelha (1972), muitos dos cineastas e participantes do primeiro ciclo do Cinema Marginal Piauiense deixaram Teresina para estudar ou trabalhar em outros lugares. Durvalino Couto e PJ Cunha foram para Brasília, Arnaldo Albuquerque, Carlos Galvão e Xico Pereira para o Rio de Janeiro, enquanto Nelson Nunes e José Alencar se estabeleceram em Belém. Ainda assim, sair do Piauí não significou romper com suas origens. Onde quer que estivessem, esses artistas levavam consigo o espírito piauiense e a paixão por produzir um cinema divertido, político e experimental, feito em Super-8 e sempre baseado na colaboração.
Esta sessão, portanto, destaca as primeiras influências de Torquato Neto no Rio de Janeiro e acompanha a trajetória dos cineastas piauienses à medida que levaram essa energia para além de seu estado natal, continuando a redefinir o cinema brasileiro por meio da prática coletiva.
- Vã-Pirações (1980) de Arnaldo Albuquerque
- Aterro (1979) de Dogno Içaino
- Helô e Dirce – Mangú Bangue (1971) de Luiz Otávio Pimentel
- Escorpião Vermelho (1974) de Carlos Galvão
- Porenquanto (1973) de Carlos Galvão
- Tupy Niquim (1974) de Xico Pereira
Total: 73 minutos
Domingo 30/11 – 19h30 Sessão 7
Estreia Mundial – Nova cópia em 2K de Trem Fantasma (1977) de Alain Fresnot
Sinopse
Realizado em 16mm durante os anos de estudante de Fresnot na ECA-USP, Trem Fantasma foi o primeiro longa da escola a ser lançado nos cinemas na década de 1970. O filme acompanha Eduardo e Sílvia, dois jovens que decidem viver juntos fora de qualquer obrigação social: ele busca fama e ascensão como ator, enquanto ela procura liberdade sustentando-se com seu artesanato. Mais do que uma narrativa intimista, o filme capta a atmosfera de uma juventude em transformação, em contato com o cenário cultural e político da metrópole. Exibido em circuitos alternativos, afirma-se como um ensaio sobre desejo, trabalho e coletividade, feito com a energia de um cinema compartilhado entre amigos.
- Trem Fantasma (1977) de Alain Fresnot – 83 min
