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03/04/2026 • 19:30h

Projeto Raros: Maciste no Inferno

Maciste all’Inferno (Entrada Franca)
Itália | 1962 | 91 minutos | DCP
Direção: Riccardo Freda
Classificação: 12 anos

Maciste all’inferno (Maciste no Inferno, 1962), dirigido por Riccardo Freda, é uma obra do cinema italiano de gênero situada no cruzamento entre o peplum — ciclo de filmes de aventura histórica popular no final dos anos 1950 e início dos 1960 — e o horror fantástico que começava a ganhar forma na Itália naquele período.

Lançado em 1962, e conhecido internacionalmente como The Witch’s Curse, o filme apresenta uma narrativa que mistura elementos históricos, sobrenaturais e míticos. Ambientado inicialmente na Escócia do século XVII, o enredo se inicia com a execução de uma mulher acusada de bruxaria que, antes de morrer, lança uma maldição sobre a comunidade. Um século depois, outra jovem, semelhante à primeira, é novamente acusada injustamente, reativando a lógica persecutória e supersticiosa. É nesse momento que surge Maciste, figura heroica recorrente no cinema italiano desde o período mudo, aqui interpretado por Kirk Morris. Dotado de força extraordinária e de uma moral inabalável, o personagem decide enfrentar a origem do mal, empreendendo uma descida literal ao inferno para salvar a inocente.

Maciste all’inferno revela a capacidade de Freda de fundir gêneros distintos. Aqui, o universo do peplum, com seu herói musculoso, suas referências à Antiguidade e seu apelo popular, é atravessado por elementos do horror gótico, como a figura da bruxa, a maldição, o inferno e as criaturas monstruosas. Essa hibridização antecipa tendências que se consolidariam posteriormente no cinema italiano, especialmente na obra de diretores como Dario Argento e Lucio Fulci.

Realizado com recursos limitados, o filme recorre ao reaproveitamento de imagens de outras produções. A interpretação de Kirk Morris como Maciste evidencia sua inexperiência dramática — o ator era, originalmente, fisiculturista. À época de seu lançamento, a recepção crítica foi, em geral, pouco entusiasmada: o filme foi visto como um produto típico do cinema popular italiano, com limitações narrativas e técnicas evidentes. 

A exibição integra o Projeto Raros de Abril, que acontece na sexta-feira, 03 de abril, na Cinemateca Capitólio. A escolha do filme também estabelece um diálogo histórico com a própria trajetória do projeto: o primeiro título exibido pelo Raros na Cinemateca Capitólio, em abril de 2017, foi igualmente uma obra de Riccardo Freda, Raptus – O Diabólico Dr. Hichcock (1962). Assim, dois filmes realizados no mesmo ano se encontram como marcos simbólicos de abertura e continuidade da programação, evidenciando a centralidade do diretor no cinema de gênero italiano.

SOBRE O DIRETOR

Riccardo Freda foi um dos cineastas mais singulares do cinema italiano do século XX — ao mesmo tempo profundamente inserido em sua tradição cultural e, paradoxalmente, isolado dentro dela. Nascido em 24 de fevereiro de 1909, na cidade de Alexandria, e falecido em 20 de dezembro de 1999, em Roma, Freda construiu uma trajetória marcada por deslocamentos: entre o cinema clássico e o moderno, entre a tradição literária e a cultura popular, entre o reconhecimento tardio e a marginalidade crítica.

Formado em Direito, mas profundamente interessado pelas artes visuais e pela literatura, iniciou sua carreira no cinema nos anos 1930 como roteirista e assistente de direção, colaborando com nomes como Alessandro Blasetti. Sua estreia como diretor, com Don Cesare di Bazan (1942), já indicava uma inclinação para narrativas históricas e adaptações literárias — traço que se tornaria central em sua obra. Desde cedo, Freda se revelou um cineasta que não inventava a partir do nada, mas trabalhava sobre um vasto repertório cultural: Alexander Pushkin, Victor Hugo, Dante, Tolstói, além de lendas europeias e tradições populares.

Seus filmes são povoados por figuras emblemáticas — Jean Valjean, d’Artagnan, Casanova, Beatrice Cenci, Maciste — que não apenas representam a si mesmas, mas encarnam valores, conflitos e forças históricas. Essa relação com a tradição confere à sua obra uma dimensão quase épica, que atravessa diferentes gêneros, do filme histórico ao horror.

Apesar de ter sido durante muito tempo considerado um cineasta menor, ligado ao cinema comercial, Freda foi progressivamente reavaliado. Hoje, é reconhecido como um dos fundadores do horror italiano, tendo influenciado cineastas como Dario Argento e Lucio Fulci. Seu trabalho com Mario Bava, em particular, foi fundamental para o desenvolvimento de uma estética visual que marcaria profundamente o gênero.

RICCARDO FREDA POR REINCHENBACH, 2001

Em texto publicado em 14 de fevereiro de 2001, o crítico Reinchenbach resgata a figura de Freda a partir de um olhar que mescla memória, anedota e crítica, contribuindo para a construção de sua imagem mítica:

“Em uma de minhas últimas colunas no portal em que escrevi durante um ano, ressaltei o nome de Riccardo Freda, falecido em dezembro de 1999, aos 90 anos de idade. Antes de se interessar por cinema, Freda foi escultor e crítico de arte. Andou pelo Brasil no final dos anos 40, dirigindo dois longas-metragens (O Guarani e O Caçula do Barulho), ensinando os nativos a filmarem cenas de briga, e quase enlouqueceu quando sua musa e esposa, a belíssima Gianna Maria Canale, andou flertando com o galã Anselmo Duarte.

A fama de Freda era a de um diretor irascível, de trato complicado. Em seu derradeiro longa-metragem, não creditado, A Filha de d’Artagnan (1994), já com mais de oitenta anos, quase agrediu a atriz Sophie Marceau devido a constantes crises de estrelismo — e acabou sendo despedido.

Freda foi eternizado como o ‘pai’ do euro-terror. O problema é que o acesso aos seus filmes, em especial os de gênero giallo, sempre foi muito difícil.”

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