Horários
Cinelimite: Cinema Marginal Piauiense – Marginais no Rio e em Fortaleza
Helô e Dirce – Mangú Bangue (1971) de Luiz Otávio Pimentel
Aterro (1979) de Dogno Içaino
Escorpião Vermelho (1974) de Carlos Galvão
Porenquanto (1973) de Carlos Galvão
Tupy Niquim (1974) de Xico Pereira
Total: 73 minutos
Nos anos 1970, um coletivo de artistas, jornalistas, cineastas e agitadores culturais de Teresina transformou o Super-8, então tecnologia doméstica da Kodak, em linguagem cinematográfica de vanguarda. Influenciados pela Tropicália, pelo cinema marginal brasileiro e por figuras como Torquato Neto, Ivan Cardoso, e Luiz Otávio Pimentel, nomes como Edmar Oliveira, Xico Pereira, Dogno Içaiano, Antônio Noronha, Lindemberg Pirajá, José Alencar, Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Durvalino Couto, Haroldo Barradas, Rubem Gordim, e Nelson Nunes criaram filmes que desafiavam os códigos narrativos e a repressão da ditadura com liberdade, humor e crítica. Obras como Adão e Eva: do Paraíso ao Consumo (um filme perdido), Terror da Vermelha, O Guru da Sexy Cidade, Aterro, Coração Materno, Tupy Niquim, Porenquanto, David Aguiar, Miss Dora, Um Sonho Americano, e Marginália mostram como esse grupo articulou uma produção descentralizada e colaborativa entre Teresina, Rio de Janeiro, Fortaleza, e Belém, usando o cinema como ferramenta de invenção estética e resistência política. Hoje essa produção é reconhecida como CINEMA MARGINAL PIAUIENSE, símbolo de uma experiência intensa de experimentação, amizade e rebeldia que transformou a margem em potência criativa.
Sinopse da sessão
Em 1971, vivendo no Rio de Janeiro e pouco antes de retornar a Teresina, Torquato Neto atuou como prostituta travestida no filme pioneiro de temática gay Helô e Dirce – Mangú Bangue (1971), de Luiz Otávio Pimentel. Essa produção, assim como Nosferato no Brasil (1971) de Ivan Cardoso, filmada ainda mais cedo naquele ano, teve um impacto profundo sobre o jovem tropicalista. Torquato levou essas experiências e influências — como o interesse em desconstruir o cinema de gênero e em adotar um experimentalismo underground — de volta a Teresina, onde as compartilhou com seus pares. Com isso em mente, um dos filmes de abertura desta sessão é a cópia resgatada da obra de Pimentel.
Após a conclusão de O Terror da Vermelha (1972), muitos dos cineastas e participantes do primeiro ciclo do Cinema Marginal Piauiense deixaram Teresina para estudar ou trabalhar em outros lugares. Durvalino Couto e PJ Cunha foram para Brasília, Arnaldo Albuquerque, Carlos Galvão e Xico Pereira para o Rio de Janeiro, enquanto Nelson Nunes e José Alencar se estabeleceram em Belém. Ainda assim, sair do Piauí não significou romper com suas origens. Onde quer que estivessem, esses artistas levavam consigo o espírito piauiense e a paixão por produzir um cinema divertido, político e experimental, feito em Super-8 e sempre baseado na colaboração.
Esta sessão, portanto, destaca as primeiras influências de Torquato Neto no Rio de Janeiro e acompanha a trajetória dos cineastas piauienses à medida que levaram essa energia para além de seu estado natal, continuando a redefinir o cinema brasileiro por meio da prática coletiva.